‘Não estou aqui para barganhar preço de venda’, diz presidente da Estácio

O novo presidente da Estácio, segundo maior grupo privado de educação no país, Chaim Zaher, que assumiu o posto de maneira interina na última semana, está determinado a fazer a empresa voltar crescer. Em entrevista ao site de VEJA, Chaim Zaher reforçou a possibilidade de a companhia seguir sua vocação de consolidadora, mesmo em meio à intenção de compra manifestada por duas concorrentes, a Kroton e a Ser Educacional. Zaher enfatizou que sua principal missão à frente do grupo é buscar sinergia interna, ampliando receitas, inclusive, por meio de uma maior presença no Estado de São Paulo.

“A meta é arrumar a casa e fazer a Estácio voltar a brilhar”, disse. Questionado se está aproveitando este momento para barganhar uma melhor proposta de compra por parte das duas interessadas, ele disse que não se sujeitaria a “arrumar a noiva” para, depois, “entregá-la a alguém”. Em seguida, ponderou: “Agora, se no meio do caminho, aparecer um noivo mais bonito, novo, e ela se encantar, não sou eu quem decido, é o conselho”.

Ao que tudo indica, este noivo, mais “novo e bonito”, é Rodrigo Galindo, que, com apenas 38 anos, é um dos executivos mais respeitados do setor no país. Nesta terça-feira, a Kroton melhorou em quase um terço sua oferta pelo controle da Estácio, para uma troca de 1,25 ação de emissão da Kroton para cada papel da Estácio. Segundo uma fonte ouvida pela agência Reuters, a proposta é definitiva e já conta com apoio de 40% dos acionistas da Estácio. Confira a entrevista com Zaher, feita antes desta segunda ofensiva.

Por que as ações da Estácio se desvalorizaram tanto nos últimos meses? Falta de comunicação com o mercado. Fizemos exatamente o oposto do que a Kroton fez. Faltou mostrar as coisas boas que a Estácio tem – não só o Ebtida (medida de geração de caixa), a captação e outros indicadores financeiros. Teríamos de ter mostrado coisas positivas que a médio e longo prazo são constantes. O mercado passou a observar a queda que sofremos, após restrições no Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), e a falta de uma recuperação. A partir daí, os investidores ficaram preocupados. E eles vão para onde o retorno é maior. Há três players de educação no mercado, e a Kroton, sem dúvida, vinha despontando. O Rodrigo Galindo, presidente da Kroton, é um bom administrador, estrategista e, ao mesmo tempo, conseguia convencer o mercado que era o melhor da praça. Lamentavelmente, o nosso pessoal de Relação com Investidores não soube cuidar da comunicação. Tanto é que não está mais conosco. Nós botávamos um ovo de pato e ninguém ficava sabendo. Já a concorrência botava um ovo pequeno, e gritava feito galinha. Apanhamos aí, na falta de comunicação.

Durante a teleconferência da última semana, o senhor classificou a primeira proposta que a Kroton como “sem sentido” e “fora de cogitação”. Por quê? A proposta aproveita um momento de fragilidade, em que a ação estava em um momento ruim, então, se torna ofensiva. Mesmo financeira, a troca de 1,20 ou 1,24 ação, não é interessante (Nota: a declaração foi dada antes de a proposta de 1,25 por ação ser apresentada pela Kroton). Em segundo lugar, o meio: veio a público pela imprensa, após a divulgação de um fato relevante. Sendo informal, não existe proposta nenhuma, nem ofensiva, nem não ofensiva. O que foi veiculado na imprensa não diz o que é o tamanho e a grandeza da Estácio. Ela chegou a valer metade do que a Kroton valia e hoje vale um quarto. Não é vantajoso nem para os acionistas, como eu, nem para os controladores. E mais: a Estácio nunca esteve à venda. Ela recebeu uma provocação. Como estamos num mundo de governança e é uma instituição sem controlador, temos a obrigação de pegar tudo o que vier e levar ao conselho.

O senhor tem dito que os acionistas ficaram inseguros? Por quê? Pelas incertezas e especulações. É natural esse sentimento em um cenário de indefinições, em termos de sinergia, o que cada um ganha ou perde, se a Kroton compra ou não. Há diversas possibilidades.

Com o interesse de dois grandes concorrentes, Ser e Kroton, o senhor diria que este é um momento privilegiado para garantir uma boa proposta? Como educador, diria que não. É melhor seguir sozinho. A Estácio tem muito espaço, e em até dois anos reverteremos esse quadro desfavorável, e faremos ela voltar a seu pico, com a ação valendo 25 reais. Se uma Kroton, com 1 milhão de alunos, vale 20 bilhões de reais, a Estácio, com 500.000 alunos, não pode valer um quarto disso. Ela tem condições para evoluir, fazendo aquisições e aumento de receitas. Se não houver nenhum problema de percurso, ela vai embora por si própria. Não estou aqui para barganhar. Não me sujeitaria a arrumar a noiva e entregar para alguém. Estou indo para casar com a noiva. Agora, se no meio do caminho, aparecer um noivo mais bonito, novo, e ela se encantar, não sou eu quem decido, é o conselho.

O Galindo é novo e bonito… Muito novo e bonito sim. Mas quem decide, reforço, são os investidores. A minha opinião não importa, sou CEO. Na hora da votação, saio dessa posição antes de votar, para não entrar em conflito.

Qual é o seu principal objetivo à frente da Estácio? Buscar sinergia. Como exemplo, pretendo ampliar a presença da Estácio em São Paulo. Vou trabalhar muito para isso. Estou buscando outros players, para oportunidades de fusões ou aquisições. Não podemos estar fora da cidade. Também não estamos em Campinas, Rio Preto e outras cidades do interior que podem agregar muito. São Paulo é um caminho diferente. Tem muitas boas instituições. Tem a Unip, Uninove, FMU, diversas faculdades de respeito. Nós vamos ocupar espaço aqui. A meta é arrumar a casa e fazer a Estácio voltar a brilhar.

Se a Estácio fechar negócio com a Kroton, ela não corre o risco de sumir, assim como aconteceu como a marca Anhanguera? Acredito muito na capacidade do Galindo, CEO da Kroton. Ele é educador, inteligente, capaz, pautou sua vida na área de educação. Se eu fosse ele, não faria isso. Aproveitaria o bom nome que tem a Estácio no Rio de Janeiro, por exemplo. Tenho convicção que ele vai fazer isso. Talvez a Anhanguera não tivesse esse tamanho que a Estácio tem. E a Kroton também não está em todos os lugares. Ele [Galindo] tem nomes. Não acredito, até pedagogicamente, que ele faça isso. Seria uma judiação, uma frustração para todos os funcionários. Até o senhor João Uchoa [fundador da Estácio], que está morto, vai se mover no túmulo. Quarenta e seis anos não deveriam ser jogados pelo ralo.

O senhor também já disse que a empresa cogita seguir sozinha, com sua vocação de “consolidadora”. Que tipo de empresas estão no radar de vocês? Pequenas e grandes empresas dão o mesmo trabalho, por isso, prefiro as médias e, sobretudo, grandes. Elas ajudam a ter sinergia, mais alunos e crescer. Quando é pequena, não há sinergia.

Internamente, quais as medidas de sinergia e aumento de receita que vocês avaliam? Podemos dar consultoria para outras faculdades pequenas, transferir tecnologia, inclusive na área de ensino à distância. Fazer uma editora dentro da Estácio, investir em pós-graduação. Coloquei quatro vice-presidentes para mapear toda a empresa. A partir de semana que vem tenho condições de relatar o que nós temos e podemos fazer.

E corte de custos? Não gosto de cortar custos por cortar, como cafezinho, faxineira, substituir bons professores, mais caros, por mais baratos. Acho que isso não leva a nada. A curto prazo, é bom, mas a médio e longo prazo acaba com a instituição. Por isso, sou mais de buscar receita a partir de sinergias internas. Corte todo mundo faz, agora para ampliar receitas é preciso ter criatividade. Temos campi no Brasil inteiro, maravilhosos, vamos ver o que dá para fazer dentro da própria instituição.

Fonte: Veja

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