O Globo editorial: Linchamento virtual de lulistas contra Jornalista do Estadão não combina com governo democrático

O jornal O Globo publicou nesta quinta-feira (22) um editorial em que critica os ataques virtuais sofridos pela jornalista Andreza Matais, do jornal O Estado de S. Paulo. Matais foi alvo de ataques de apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva após a publicação de uma série de reportagens sobre a visita de Luciene Barbosa Farias, conhecida como “Dama do Tráfico”, a assessores do Ministério da Justiça.

No editorial, O Globo chama os ataques de “linchamento virtual” e afirma que eles “combinam mais com autocracias do que com um governo eleito empunhando o estandarte da democracia”. O jornal lembra que Matais foi submetida a “ataques virulentos nas redes sociais, promovidos por influenciadores e contas simpáticos ao governo, depois repercutidos por autoridades”.

Luciane Barbosa Farias é mulher de Tio Patinhas, preso desde dezembro de 2022, quando era considerado um dos criminosos mais procurados do Amazonas. Segundo informações do Estadão, ela foi recebida duas vezes neste ano por assessores do ministro Flávio Dino. Em março, ela esteve com o secretário de Assuntos Legislativos do Ministério, Elias Vaz. Em maio, com o secretário nacional de Políticas Penais, Rafael Velasco Brandani.

A pasta alega que ela acompanhava um grupo que pediu audiência com as autoridades.

Após a publicação da reportagem, o Estadão passou a ser alvo de ataques de lulistas e simpatizantes. A jornalista Andreza Matais chegou a receber ameaças de morte nas redes sociais.

Eis a íntegra do editorial do Jornal O Globo:

A Associação Nacional de Jornais (ANJ) emitiu nesta segunda-feira uma nota oportuna e necessária repudiando as tentativas de intimidação contra o jornal O Estado de S. Paulo e sua editora de Política, a jornalista Andreza Matais. Depois de ter revelado em reportagem o encontro da mulher de um líder de facção criminosa com secretários do Ministério da Justiça e parlamentares, Andreza foi submetida a ataques virulentos nas redes sociais, promovidos por influenciadores e contas simpáticos ao governo, depois repercutidos por autoridades.

A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, e deputados governistas como Ivan Valente, Nilto Tatto e Rubens Pereira Jr. endossaram conteúdo de uma publicação de inclinação petista acusando Andreza de ter submetido jornalistas a assédio moral durante a confecção da reportagem sobre a “dama do tráfico”. A única “prova” apresentada para embasar acusação tão grave eram reproduções de telas do site do Ministério Público do Trabalho que qualquer um pode preencher anonimamente.

Não foi a primeira vez que Andreza foi alvo de perseguição por reportagens que desagradaram ao governo. Em outubro, sua conta no portal gov.br foi invadida, e ela recebeu ameaças de que seus dados pessoais seriam revelados em represália a notícias sobre o governo federal. Os ataques começaram depois de outra reportagem, atribuindo à atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a liberação de recursos para a Argentina pagar dívidas com o FMI.

O uso do linchamento virtual para intimidar jornalistas combina mais com autocracias do que com um governo eleito empunhando o estandarte da democracia. Na corrida cotidiana para levar notícias ao público, mesmo os melhores jornalistas erram. Publicações sérias como o Estadão costumam retificar informações incorretas. Além disso, o Judiciário dispõe de mecanismos eficazes para partes atingidas por reportagens reivindicarem seus direitos. Nada — nem o fato de eventualmente errarem — justifica ataques coordenados a jornalistas, muito menos a mulheres, situação frequentemente contaminada pelo machismo.

Se há algo de positivo em todo esse episódio lamentável, é a certeza de que a imprensa continua a cumprir seu papel de fiscalizar os poderosos. Como afirmou Eurípedes Alcântara, diretor de jornalismo do Grupo Estado: “A reação furiosa orquestrada nas redes sociais contra jornalistas doEstadãoem nada diminui a qualidade da apuração da reportagem sobre as intimidades da dama do tráfico com altos funcionários públicos. Ela mostra apenas a incapacidade de certos setores de conviver com o jornalismo independente”.

Fonte: Gazeta Brasil

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