Suspeito de matar mulher após ritual do Daime é morto em cadeia, em GO

O engenheiro agrônomo Antônio David dos Santos Filho, de 40 anos, preso suspeito da morte da auxiliar de enfermagem Deise Faria Ferreira, 41 anos, após um ritual da seita Daime, em Goiás, foi morto dentro de uma cela da Casa de Prisão Provisória (CPP), no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital, na noite de quarta-feira (9).

De acordo com o perito criminal Ricardo Matos, o engenheiro agrônomo foi vítima de espancamento. “Ele estava completamente amarrado, inclusive os membros superiores e inferiores, totalmente imobilizado”, contou.

Ainda segundo o perito, pelo menos dez detentos participaram das agressões que vitimaram Antônio. “Informações iniciais repassadas pelos servidores locais apontam que os presos ficaram revoltados com o crime pelo qual ele era suspeito, que é o desaparecimento da auxiliar de enfermagem”, relatou Matos.

A assessoria de imprensa da Superintendência Executiva de Administração Penitenciária (Seap) informou, em nota, que a morte do preso será investigada pela Polícia Civil e que uma “sindicância interna será instaurada para apurar aspectos administrativos”.

O engenheiro foi detido no último dia 26 de janeiro na cidade de Bombinhas, no Litoral Norte de Santa Catarina. Ele foi indiciado pelo homicídio de Deise e também por ocultação de cadáver, já que o corpo dela ainda não foi achado. Além dele, também foi preso por envolvimento no crime o líder do Instituto Céu do Patriarca e Matriarca em Goiânia, Cláudio Pereira Leite, responsável pelo ritual do Daime.

O G1 tenta contato com a defesa de Antônio David, mas ela não foi localizada até a publicação desta reportagem. Em depoimento à polícia, logo após ser preso, ele negou envolvimento com o desaparecimento de Deise.

A auxiliar de enfermagem sumiu no dia 11 de julho do ano passado, após ir até uma chácara, na capital, para participar de um ritual. A família dela só foi comunicada do desaparecimento quase 24 horas depois de ela ter sido vista pela última vez, quando Antônio, que também participava do ritual, foi devolver o carro da vítima na casa dela.

Segundo a Polícia Civil, a mulher frequentava a seita Daime cerca de três meses antes do desaparecimento e teria bebido diversas vezes o chá da ayahuasca – usado nos rituais religiosos e conhecido por possuir efeitos alucinógenos. Segundo os policiais, à família foi dito que ela desapareceu após ingerir o chá, durante um ritual.

Deise Faria Ferreira, 41 anos, foi vista pela última vez em ritual de Santo Daime, em Goiás (Foto: Reprodução/ TV Anhanguera)

O Corpo de Bombeiros realizou as buscas por Deise na região em que ela desapareceu por quase uma semana, mas nada foi encontrado. Parentes também participaram das ações, que foram em vão.

Durante as buscas foram encontradas peças de roupa com manchas próximas à chácara em que ela foi vista pela última vez. A Polícia Civil realizou testes e concluiu que a substância não era sangue, mas não soube precisar o que teria gerado a mancha.

Mentira em depoimento
Para a Polícia Civil, o engenheiro mentiu sobre o desaparecimento de Deise. Áudios gravados pela família da vítima mostram divergências ente o que ele contou aos parentes e a versão dada em depoimento. Com isso, a investigação concluiu que Antônio David a matou e escondeu o corpo da vítima.

“A polícia desde o principio percebeu que os depoimentos do Antônio eram muito contraditórios. Toda a versão que ele deu para os fatos foi desconstruída pelos investigadores. Ele apresentou uma série de histórias fantasiosas que a perícia afirma que é impossível de ocorrer. Enfim, até a física ele contraria nos depoimentos dele”, afirmou o assessor de imprensa da Polícia Civil, o delegado Gylson Ferreira.

Em depoimento à polícia, Antônio disse que não houve o consumo de chá durante o período noturno, que Deise estava calma, tranquila, e não houve nenhuma discussão durante o ritual. Além disso, ele contou que após a saída da vítima da chácara, entrou no carro dela e tentou encontrá-la, mas não a achou.

Ritual de Santo Daime foi realizado em chácara de Nerópolis, Goiás (Foto: Reprodução/ TV Anhanguera)

Na época, as irmãs da vítima foram até o local para, junto com Antônio, procurar a auxiliar de enfermagem. “A história estava mal contada, então resolvemos gravar em áudio todas as conversas para, depois levar à polícia. E isso foi de suma importância para as investigações”, disse a irmã da vítima, Keila Faria.

Os áudios contrapõem a versão dada por Antônio à polícia. Neles o suspeito conta que houve uma discussão dentro da chácara, que Deise chegou a entrar no carro para ir embora, mas que fugiu em seguida. “Ela ficou naquela falação, agredindo um, falando no outro que queria ir embora. Eu fiquei manobrando o carro dela, tentaram por ela dentro [do veículo], quando pensaram que não, ela saiu. Eu manobrei para sair. Daquela quadra ela sumiu”, diz Antônio em uma das conversas gravadas pela família.

De acordo com o delegado Thiago Damasceno, responsável pelo caso, o líder da seita combinou com as testemunhas as versões que elas deveriam dar. “Pela postura dele [Cláudio] desde o início, de manipular e coagir testemunhas, mostra que ele tinha a intenção de prejudicar as investigações. O comportamento dele não era compatível com alguém que tinha um colega de religião desaparecido”, afirmou o delegado.

Roupa que Deise usava quando deixou chácara foi achada no carro devolvido à família, em Goiânia, Goiás (Foto: Divulgação/Polícia Civil)

Desaparecimento
Para Damasceno, Antônio também tentou simular o desaparecimento de Deise ao jogar roupas da vítima em uma fazenda vizinha ao local onde ocorria o ritual. As peças tinham sido usadas pela vítima durante o ritual. Entretanto, a auxiliar de enfermagem trocou de roupas antes de desaparecer.

“Nosso primeiro questionamento foi: se a Deise não estava usando as roupas encontradas na fazenda quando deixou a chácara, o que ela vestia? Foi aí que uma testemunha nos relatou quais eram as roupas quando ela passou pelo portão e sumiu”, contou o delegado.

Ainda segundo o investigador, a blusa descrita por essa mesma testemunha foi encontrada dentro do veículo de Deise. “Ao sair da chácara na noite que ela desapareceu, ele [Antônio] encontrou com a Deise. A principio ele narrou que teria saído da chácara e não mais visto a Deise. Mas isso foi desconstruído no momento em que provamos que uma das peças de roupa que ela usava, retornou dentro do veículo”, concluiu o delegado.

A polícia ainda não tem qual seria a motivação do crime e nem mesmo onde está o corpo. “A gente acredita, de acordo com alguns indícios, que ele possa ter perdido a paciência com ela dentro do veículo e, a partir daí, ter agredido ela e isso ter gerado um mal maior. A gente acredita que foi um homicídio”, disse o delegado.

A polícia ainda analisa se vai indiciar outras pessoas que estavam no local por falso testemunho, já que inicialmente mentiram em seus depoimentos à polícia.

Fonte: G1

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